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A nossa natureza

Mariana Guimarães ⓒ

Por um lado, somos natureza, por outro, dentro de cada um, existe uma natureza, uma natureza em movimento, dinâmica, viva, mas que não deixa de ser uma natureza.

Há coisas que são naturais em nós, e noutras pessoas não são tanto. Há sonhos que temos que não existem noutras pessoas. Há sentimentos que nos movem que não existem noutras pessoas.

Não é por acaso que somos quem somos. É a nossa natureza.

Podemos cuidar dela, aperfeiçoá-la, mas não podemos fugir dela. E ainda bem! Qual seria o sentido de uma árvore deixar de ser uma árvore e ser, em vez disso, um porco? Bom, só mesmo em filmes de ficção, na nossa imaginação, ou num mundo diferente que não é o nosso – mas como não há certezas de nada e tudo é possível, o mais certo é dizer que pelo menos não é o mundo que nós temos acesso no dia-a-dia.

Uma árvore nasce e naturalmente é uma árvore. O sol nasce e naturalmente é o sol. Uma ervilha nasce e é naturalmente uma ervilha. Não são outra coisa qualquer. E tanto a árvore, como o sol, como a ervilha tem um papel fundamental e diferente no mundo.

Parece-me que nós seres humanos, não deixamos de ser seres humanos, e ser parte da natureza, e ter a nossa natureza individual, mas conseguimos fugir dela, em parte. Por exemplo, uma árvore precisa de beber água das suas raízes, e ela bebe. Não questiona, não deixa de o fazer porque tem medo do julgamento externo, não se atrapalha achando que não merece ou que não é boa suficiente. Nós geralmente também não questionamos estas necessidades mais “aceites”. Mas outras, mais desprestigiadas pela sociedade, ou mais rotuladas, já geram mais conflito ou nem chegam a gerar, porque as afastamos mesmo antes de as considerar.

O ser humano precisa às vezes, por exemplo, de se expressar de forma artística e menos lógica, dar largas à sua criatividade, fazer arte, da forma como sentir. E é algo natural, enquanto seres humanos, essa necessidade. Mas quantos de nós não se reprimem para não o fazer porque acham que não conseguem, não são artistas por isso não podem nem sabem, ou que não têm jeito, ou que blá blá blá?

A árvore não é tão complicada. Nem o sol. Nem a ervilha.

As nossas mentes muitas vezes distanciam-nos da nossa natureza humana, a individual e a coletiva. Desde sempre que os seres humanos criam, e fazem arte, é algo natural no ser humano, é uma expressão natural nossa. Olhem por exemplo, a pintura, a dança, a música (e tantas outras formas de arte, mas acredito que estas sejam as mais básicas e mais antigas artes criadas pelo ser humano).

Outros exemplos: a nossa natureza humana, ou pessoal, também pode pedir organização, e nós não sermos organizados. A nossa natureza humana, ou pessoal pode pedir para termos mais descanso, e nós não nos permitimos descansar o quanto precisamos. A nossa natureza pode pedir mais interação com pessoas ou menos, e nós podemos nem saber o que é ou não saudável para nós.

Sabemos que fugir da nossa natureza tem consequências, em primeiro lugar para o próprio: desgaste físico, emocional, psicológico, profissional, pessoal, relacional, social, reduzido bem-estar e alegria de viver, depressão, doenças físicas mais ou menos graves… entre outros). Pode haver consequências coletivas também. Basta olhar casos de pessoas que toda a vida se negam ou não se permitem a viver de uma determinada forma, a seguir a sua grande paixão, e se deparam de repente com uma situação de risco de vida em que são “levadas” a regressar a quem realmente são e fazer aquilo que estão aqui para fazer, que amam.

A depressão, por exemplo, pode-se definir também como amor reprimido. Quando o amor dentro de alguém não está a fluir, não está a ser canalizado para algo que a pessoa quer e lhe faz sentido (o amor é uma energia enorme e muito forte, quem sabe até a mais forte que temos dentro de nós), quando não é manifestado, quando fica estagnado, reprimido, ignorado, pode tornar-se muito facilmente uma doença, e muitas das vezes, em depressão.

Mas qual é realmente a minha natureza? Como posso viver de acordo com a minha natureza?

Creio que vivermos a nossa natureza não acontece de um dia para o outro, é algo que podemos cultivar todos os dias, pela presença e conexão connosco mesmos, honesta e autêntica, mas, pelos vistos, também é natural no ser humano, se distanciar de si próprio. Faz parte, claramente daquilo que vivemos, desde sempre. E talvez por isso tantas civilizações foram ao ar. Porque o ser humano se desconectou demasiado de si e deu prioridade a coisas que o distanciavam demasiado da sua natureza – da natureza em geral – e puff. Desfez-se o Chocapic. Não aguenta. Nós somos natureza, e a natureza é mais forte. É uma ilusão humana, acharmos que dominamos a natureza (= a nós). Podemos moldar algumas coisas da nossa natureza, da natureza em geral, mas há limites, muitos mesmo muitos limites, para o poder do homem, e da mulher, sobre a sua natureza, e sobre a natureza em geral.

Requer humildade aceitar, porque passamos de repente a ser um pontinho de quase nada no planeta. Tal como uma árvore o é, com tanta dignidade!

Ser quem somos é aquilo que estamos aqui a fazer. Tal como o sol, só tem de ser sol.

Parece muito mais simples, por um lado, aceitar que somos natureza, e que para além disso, temos a nossa natureza. Parece muito mais simples, escolher ser quem eu sou. Torna a vida mais clara. As nossas escolhas mais criativas e sábias. Mas por outro lado, muitas vezes, fica a pergunta:

Quem é que eu sou?

Vou descobrindo, no dia-a-dia, experienciando-me, escutando-me, verdadeiramente. A minha mente pode dizer que quer ser isto ou quer ser aquilo. Mas quem é que eu sou, realmente?

Esta é a pergunta que me leva a despir de toda a bagagem e roupas que não são minhas e que pensava que me encaixava tão bem porque é o que é esperado ou que eu esperava de mim mesma.

Esta é a pergunta que me leva de volta a mim, nua e sem nada nas mãos nem às costas, de volta a quem realmente sou quando não nos me prendo a ter que ser algo.

Esta é a pergunta que me devolve a liberdade de ser quem sou.

Esta é a pergunta que me faz olhar profundamente, e me sentir genuinamente, e aprender fazendo a respeitar a minha natureza.

Esta é a pergunta que me leva de volta à verdade.

Quem és tu, realmente?

Esta é a pergunta que nos faz valorizar as características e dons naturais que temos desde que nascemos, e mais do que rotulá-las como positivas ou negativas, usá-las sabiamente e construtivamente neste todo de que fazemos parte. Quer queiramos ou não, estas características (e dons) vão sempre ser mais fortes, são a nossa natureza. Termos consciência de quais são estas características, os nossos dons naturais, ajuda-nos a desenvolvê-los, e usá-los. Não termos consciência destas características, negá-las, ignorá-las, tentar escondê-las, não adianta, porque elas vão surgir e mostrar-se, de qualquer maneira – às vezes não da melhor forma!

A natureza é forte. E está tudo bem. Nós somos natureza. Podemos abraçar a nossa força e ser fortes também, sem fingir que não somos, sem ter que pôr máscaras para o parecer, e sem tentar dominar e esconder a nossa força. Acho que não é esse o objetivo, dominarmo-nos a nós e à natureza em geral.

Talvez o objetivo seja mais de aprender a estar, cada vez mais, em harmonia e plenitude, com quem somos, próprios e com os outros. Com a nossa natureza, e com a natureza, de que somos parte.

Talvez possamos ser natureza e a nossa natureza, em harmonia.

Para isso, talvez seja necessário, em primeiro lugar, aceitar sermos nós próprios.

E depois, fazer o tempo, e o espaço, para nos conhecermos, verdadeiramente, e honestamente, a cada dia.

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