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Bem-Estar / Desenvolvimento Humano / Lifestyle

Ativismo do Bem-Estar

Fotografia de Telma Antunes

Não me considero propriamente ativista, mas se ativismo for cultivar algo no mundo consistentemente, então sou ativista do bem-estar. Acredito que o bem-estar de cada um contribui para o bem-estar do mundo. Claro que não estou a falar de bem-estar egoísta, que apenas quer saber do seu próprio bem-estar (embora infelizmente, às vezes, quando chegamos ao nosso limite, esse pareça realmente o único caminho). Estou a falar de cultivar o bem-estar de uma forma construtiva individual e socialmente.

Já repararam que quem está realmente bem não cria problemas com os outros? Quando surge alguma questão, lidam com ela de uma forma tranquila.

Dando um exemplo pessoal, quando estou stressada, se me tocam na ferida, disparo, em especial com quem me é mais íntimo. Se estiver tranquila, a minha consciência está mais limpa, a minha dose de bem-estar no corpo está saudável, e o conflito ou não chega a tornar-se um conflito, ou torna-se uma questão muito mais simples de resolver.

Agora vejam isto numa grande escala. Imaginem que muitas das pessoas que existem que andam a prejudicar outras pessoas pelo mundo, imaginem que de repente iam cuidar de si, do seu bem-estar, da sua alegria de viver, e de fazer aquilo que lhes faz bem, e que tanto a sua alma quer, e pede, pede, pede. Estariam ocupadas, finalmente, com a pessoa que mais lhes compete estar: elas mesmas. Não teriam tempo para prejudicar, nem lhes ocorreria isso, porque estariam demasiado ocupadas com o seu caminho autêntico. O caminho que as acorda, que as faz sentir amor e alegria por aqui estar, mesmo com momentos mais desafiantes.

Um ser humano que vive magoado, angustiado, frustrado, magoa, a si mesmo, e quem está à sua volta, também, muitas vezes. Quem nunca ficou irritado/a com alguma coisa e mesmo sem querer respondeu mal a alguém – a/ao colega, companheiro, filho/a, amigo/a?

A felicidade, e a busca da felicidade, e a busca do bem-estar, que muitos procuram, outros encontram, e em que cada vez mais coletivamente se investe, não é um capricho nem um luxo. É uma pedra basilar para a paz no mundo, para a saúde da humanidade, para a saúde das nossas relações, para a saúde do planeta.

Por isso falo não num bem-estar desligado do mundo, tipo bolha daquelas que se cultiva às vezes em retiros e workshops, mas sim num bem-estar real do quotidiano, que nos obriga a estar em escuta, a ser honestos connosco mesmos, e que nos leva às vezes a ter que negociar, sim, porque vivemos em relações, vivemos com maiores ou menores responsabilidades, não somos apenas folhinhas ao vento a assobiar e dançar com ele.

Falo de um bem-estar genuíno e conectado realmente com quem se é. Num dia-a-dia construído em função de quem eu sou, do que quero realmente na vida, o que me faz sentido fazer, desde as pequenas às grandes ações, escolhas, rotinas. Quando fazemos aquilo que realmente e profundamente queremos (não por capricho, mas por algo maior que nos move e que nos faz sorrir até aos olhos), estamos em paz, mesmo que dê trabalho. Mas tudo isto tem de ser com os pés na terra, porque vivemos no mundo real, existe tempo cronológico (embora muitas vezes seja tão bom podermos estar no tempo sem tempo) e saber gerir o tempo é uma arte muito importante para realmente estar bem no dia-a-dia, e sentirmos que estamos a dedicar os nossos dias àquilo que realmente queremos e que realmente nos faz sentido.

Se eu voltasse a trabalhar nos campos de refugiados e com populações envolvidas em grandes conflitos, faria um trabalho diretamente com pessoas, de ajudar a trazer um profundo e basilar bem-estar, de libertação emocional, de reconexão consigo mesmo e com o outro, porque hoje acredito que isso faria uma diferença talvez mais real. Não resultaria em movimentos políticos, mas poderia trazer a humanidade de volta, pouco, a pouco.

Quer seja no nosso dia-a-dia, quer seja num lugar distante, quer seja num país em conflito, quer seja num desafio mundial, é essa humanidade que nos salva. Nós, no nosso melhor, na nossa essência mais pura, somos aqueles de quem estamos à espera. No nosso coração cabe todo o amor deste mundo. E com esse amor, tudo é possível.

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