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Porquê a dança?

Fotografia de Telma Antunes

“Dançar porquê? Tem utilidade? Que vergonha. Porque haveria de dançar? Ninguém está a dançar. É estúpido. É um gasto de tempo. Não é uma coisa séria. Não tenho tempo para dançar. Tenho que trabalhar. Isso é para quem não faz nada da vida. Dançar é nas festas.”

Pois é. Eu não sou a única que já pensei em todas estas coisas. Já ouvi várias pessoas dizer e pensar o mesmo. Já tive em várias situações em que me queria levantar e dançar e não tive coragem. Simplesmente não tive. Restaurantes, concertos mais intimistas, eventos mais alternativos e com maior abertura, casamentos até! Claro que algumas vezes me levantei e dancei e foi bom mas recordo-me de várias em que não o fiz e que não houve razão para não o fazer que não fosse vergonha e preconceitos. Uma vez, estava num concerto lindíssimo no panteão, de handpan, com uma acústica muito especial, acredito mesmo que muitos de nós que estávamos a assistir e escutar, adultos, estávamos doidos por dentro para nos levantar e começar a dançar. Nada. Ninguém. Aguentámo-nos todos. Menos a filha de um dos músicos, uma criança de 3 anos, creio, na altura, que tão naturalmente se levantou e começou a dançar e a correr e a rodopiar. Foi inspirador e nunca mais me esqueci.

As crianças de facto têm muita facilidade em fazer coisas que os adultos se dificultam de propósito para não fazer. Aguentam-se, prendem-se, reprimem-se. Não gosto muito desta ideia da repressão, mas ela acontece tanto de nós para nós até, mesmo quando não notamos. São coisas tão subtis como a energia forte daquele concerto que convidava tanto mas tanto a levantar e dançar, rodopiar, como aquela criança fez, porque não se prendeu (claro). Nós adultos temos de estar mais atentos com o que devemos ou não fazer, mas há coisas que são inocentes, e belas, e que apenas trazem bem-estar a nós e aos outros. Acredito que a dança é uma delas.

Não estou a dizer para começarmos a dançar em tudo quanto é sítio, e acho que o respeito pelos espaços e ambiente onde estamos é importante. No entanto, em muitas situações dançar não é invasivo, é até silenciosamente bem vindo, e não o fazemos na mesma.

Nada disto é um problema verdadeiro. É só chato porque este acanhamento em dançar – que muitas vezes reflete um acanhamento na vida – traz às vezes doenças, porque não é só a dança que estamos acostumados muitas vezes a prender, é também o corpo, os sentimentos, a alma.

E por isso a dança não é (apenas) uma brincadeira. Muitas culturas sabem que é vital e por isso reservam regularmente momentos de dança para o bem-estar e até sanidade e saúde geral individual e coletiva. Há culturas em que existem encontros de várias horas, muitas, para dançar. Eu experienciei em Marrocos dois dias de dança durante várias horas sem parar e é de facto um update muito grande que acontece se nos entregarmos autenticamente, um update mental, emocional, espiritual, físico até. Porque para aguentar tantas horas precisas de estar ali. Não tens outra hipótese. Se tens dúvidas o que é estar presente, e se achas que viver no momento presente é uma abstração, começa a dançar verdadeiramente e vais descobrir na pele o que é. Não vais conseguir fingir que estás presente durante muito tempo. Vais ter de estar! Nem que seja para reclamar ou dizer que não aguentas! E aí tudo começa porque estás presente e estás dentro de ti a falar o que te vai na alma.

Dançar é diferente de fazer ginástica. A ginástica requer talvez a nossa força, a nossa flexibilidade, a nossa consistência. A dança livre requer apenas a nossa presença. Se não houver presença, há apenas movimento vazio sem vida. Para dançares, precisas de estar presente. Precisas de estar em conexão com o teu corpo. Precisas de estar contigo.

Para além disso, quando danças, a tua mente, bem como o teu corpo, fica cheio de energia nova, a energia movimenta-se, e a energia vital é como um rio, é importante estar em fluxo (por isso se fala que o acúmulo de emoções no corpo não é benéfico e até pode causar doenças). Quando danças, a energia do teu corpo, a água do teu corpo (temos muita água no nosso corpo), mexe-se e tudo se começa a movimentar, orgãos, músculos, funções, tudo recebe a mensagem de que estás vivo/a e que tudo se pode movimentar e cumprir o seu movimento, tudo pode estar em funcionamento sem tensão nem obstrução. O movimento é saúde. Quando danças a tua mente também se renova, porque a mente faz parte do corpo, e também ela recebe um banho de energia vital, e por isso fica mais limpa, mais saudável, mais feliz, até. Dançar dá saúde e isso é sabido desde sempre e só me espanta que isto não seja ainda óbvio na nossa sociedade tão à frente em tantas coisas.

Dançar é permitir que a alma e o corpo se expressem livremente como um só. Para o fazer, precisas de estar em conexão contigo. É por isso que adoro facilitar a dança de outras pessoas. Não me interessa tanto a técnica. Interessa-me apoiar a PRESENÇA do outro, e o seu saudável e autêntico movimento, expressão, dança, criação, SER.

Dançar é dar espaço ao SER. É dares-te liberdade a ser quem tu és, mais do que quem queres ser, quem achas que és, quem te pedem para ser, quem achas que deves ser. Quando danças autenticamente dás-te ESPAÇO para sentir e para ser. Dançar é ser livre por dentro.

Dançar não magoa ninguém. Não invade. Não chateia. Dançar é regressar a ti mesmo/a. Regressar a casa. Regressar ao lugar de onde podes partir para uma nova viagem, ou para o simples dia-a-dia.

A sua utilidade vai para além da mente. A sua utilidade é pôr-me realmente presente dentro de mim, é abrir as minhas portinhas e janelas e pôr-me a respirar, a renovar o ar por dentro, as águas, o fogo, a terra, a sua utilidade é ela me “obrigar” no bom sentido a estar presente, a ser honesta comigo mesma, com o que estou a sentir, e poder expressá-lo no momento, sem racionalizar o que sinto, simplesmente PERMITINDO o que quer que seja que esteja dentro de mim e que esteja a acontecer sem sequer pensar nisso, mesmo que esteja em observação. Há coisas que não sei que estão a acontecer mas estão. Quando danço, estou a dar espaço a que a minha vida aconteça e flua. Pode parecer poético mas é também científico.

A dança acorda o corpo e acorda a alma, acorda o ser humano. E sabem o que este mundo precisa? De seres humanos acordados.

Se eu puder contribuir para deixar neste mundo mais conexão e mais verdade, mais amor, respeito e humanidade, e uma humanidade mais feliz, fico contente.

Vejo como a dança é uma boa forma de o fazer. A dança leva-nos a um estado de consciência muito maior, leva-nos a quem realmente somos, leva-nos à nossa alegria e vontade de viver, leva-nos a procurar a plenitude não apenas no corpo mas no dia-a-dia. Ajuda-nos a conectar com o sentido de estarmos aqui.

A dança não nos deixa fugir muito de quem somos. Adoro facilitar a dança de outros (e a minha) porque adoro facilitar o encontro das pessoas consigo próprias, com a sua casa e caminhos.

A dança permite um encontro com a nossa consciência maior porque ela abre portas no corpo e na consciência. Uma consciência que vai para além da mente, vem do corpo, vem da alma, vem da natureza de que somos parte. Uma consciência que sabe que tudo é possível e que tudo está bem. E estas coisas não adianta falar muito. Só experimentando. Só estando realmente presente.

Às vezes é preciso coragem para estar presente, porque é muito o medo de enfrentar o que estamos a sentir, o que andamos a tentar não sentir. Mas vale a pena. Só assim realmente vale a pena, porque só assim e´ real. A ilusão só nos alimenta temporariamente. Nós precisamos de nós mesmos para ser felizes, para estar bem, para ser saudáveis.

Eu sei que a dança vai-me dizer a verdade, ela vai-me fazer sentir de verdade, e ser de verdade. Vai-me fazer sentir bem na minha pele, independentemente das circunstâncias, nem que seja por estar viva, por poder respirar.

Claro que às vezes precisamos de ajuda para conseguir dançar.

Eu gosto de facilitar a dança, a minha e a dos outros, observando a dança, para poder ajudar a mim ou ao outro, a sentir-se mais inteiro na dança, mais verdadeiro, mais si próprio.

Porque quem somos na dança, somos também na vida.

Parece cliché? Mas é um facto: somos a mesma pessoa na dança, que somos na vida.

E por isso quando começo a dançar, quando me começo a mexer por inteiro, começo a movimentar a minha vida, começo a descobrir como posso estar mais inteira nela, e a fazer as mudanças e adaptações mais subtis e mais complexas, para ser eu. Naturalmente.

Porque nem eu nem tu estamos aqui por acaso. A razão pode ser mais simples ou mais complexa. Pode nem haver razão. Mas se vieste tu, é porque tinhas de ser tu. E se eu sou eu, eu preciso realmente de ser eu nesta vida, é o primeiro passo para estar viva, com saúde, bem estar, e poder contribuir com a minha parte.

Tenho sonhos dentro de mim, tenho sentir, tenho sentidos que me movem e que me levam a agir no dia-a-dia e a longo prazo para o melhor que posso realisticamente oferecer a mim mesma, à minha família, aos meus amigos e conhecidos, às pessoas com quem trabalho, aos animais, ao planeta e a tudo o que me rodeia.

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