Menu
Bem-Estar / Desenvolvimento Humano / Nascer

O Pai no Parto

O pai deve assistir ao parto? Uma pergunta que foi feita e respondida esta semana por inúmeras pessoas depois do artigo polémico na revista Máxima. Qual é a vontade do pai? Qual é a vontade da mãe? (E a do bebé?)

O parto é um momento muito importante nas nossas vidas como pais. É um momento para lá de intenso, e um momento que requer todo o cuidado. Quem está presente é uma escolha da Mulher, do Bebé dentro dela que também dará sinais, e, se tudo estiver bem, do Pai. Digo se tudo estiver bem porque há coisas que são demasiado subjetivas para dar uma regra. Vou dar um exemplo concreto: se o casal se separar e o pai estiver a ser um fator de stress real e considerável na vida da Mãe, é vital deixar a Mãe parir num ambiente de segurança e em que ela se sinta bem. No entanto, também acredito que durante a gravidez, em especial nos primeiros três meses, e nos últimos três, acontecem muitas discórdias e conflitos graças às hormonas aos saltos, e que podem ser acompanhados terapeuticamente ou não, desde que até ao parto o casal se prepare emocionalmente, fisicamente, afetivamente para ambos estarem presentes.

Dito isto, quero dizer também que sinto que os homens de hoje em dia não são iguais aos homens da geração dos nossos pais. Isto é algo óbvio, mas depois nestes momentos podemo-nos esquecer disto. Como antropóloga podia explicar isto um bocadinho mais cientificamente, mas como seres humanos, todos conseguimos ver isto. Simplesmente não são iguais. Herdaram algumas coisas, também, é óbvio, e natural. Mas também são novos em outras. E se há homens que se assustam com o parto ainda, está tudo bem, as mulheres também se assustam, somos seres humanos. Mas em geral, o que observo, e o que vejo é que os pais querem estar presentes no parto.

E sabem uma coisa? Os pais não querem apenas estar presentes no parto, eles querem ajudar a parir. E isto faz-me ter lágrimas nos olhos, é das coisas mais belas que já vi (e vivi). Um sinal de sensibilidade e de cuidado que antes era aferido apenas às mulheres amigas, familiares, doulas.

Não tem que acontecer assim. O pai não tem que estar presente no parto e não tem que ajudar. Mas olhem à vossa volta, não é isso que é natural nos pais de hoje em dia? Na realidade que eu vejo, sim. E, acredito que na maior parte dos casos, é uma benção para as mulheres (se tudo estiver bem) e é lindíssimo porque a sensibilidade e cuidado e amor do homem conjugam-se também com a sua força, com a sua presença, com a sua coragem, que ajudam a trazer um ambiente seguro para a mulher, e também relembram a mulher da sua própria força, da sua própria presença, da sua própria coragem. E se o bebé foi fruto do nosso amor a dois, há melhor forma de parir do que estarmos os dois juntos, presentes, a dar à Luz este Ser?

Claro que nós podemos precisar do nosso espaço, e tudo, é verdade. E sentimos coisas que os homens não podem imaginar o que é. Claro. Mas têm sensibilidade e as hormonas também os contagiam. Se há coisa que eu acho que faz a diferença para um parto, é a preparação (que é sempre relativa) intensiva dos dois. Uma boa preparação para o parto com bons profissionais e idealmente claro de partos humanizados, faz maravilhas. É importante estarem minimamente preparados para coisas simples e práticas, como os momentos que a mulher precisa de rugir ou de mexer a perna para cima, ou de se deitar numa posição que só ela sabe porque a faz, ou de simplesmente estar na sua dança silenciosa até à próxima contração. Há momentos em que a mulher pode não querer ser tocada MESMO e outros em que a mulher precisa de uma ajuda para se segurar, ou para lidar com a dor.

A preparação de ambos é essencial. O medo não deixa nunca de existir, mas é importante que ambos se preparem para poderem viver o parto com tranquilidade dentro da imensa intensidade, e com escuta e amor dentro do momento tão para além da consciência.

Tem vindo a acabar o tempo em que os pais estavam ausentes do meio familiar e que eram encarregues do sustento da família. Tem vindo a acabar o tempo em que os pais estavam ausentes do nascimento dos próprios filhos. E que bom. Para mim, é um sinal de evolução da humanidade, um sinal de mais amor, mais presença, mais conexão e sintonia, maior união e sinergia das forças masculina e feminina na Terra. É um sinal de equilíbrio. A energia masculina já não precisa de ir para a guerra, não precisa de se sacrificar, não precisa de se ocupar de ser aquilo que não é. Ela é suficiente. Ela é a Presença, ela é a Força, ela é a Coragem, ela é o Amor, ela é a Proteção, ela é a Vida. Ela existe em todos nós, e um pai, traz isso para o meio familiar, simplesmente por ser homem, simplesmente por ser quem é. Não precisa mais de um trabalho das 9 às 5 para o ser, não precisa mais de jogar à bola, ou não jogar e dizer palavrões, não precisa mais de ser machista, ou de dizer mal dos políticos.

Os pais já sabem que ser pai, e ser homem, é muito mais do que isso. E as mulheres também. Homem e mulher são diferentes sim. Mas cada vez mais, existem na sua unicidade em união e sinergia, e não em repulsa, separação, ou guerra.

Dizer que os pais não devem assistir ao parto é uma afirmação do século passado. Se antes os homens não estavam preparados para estar no parto, ou achavam que não estavam, ou não sabiam como estar, ou não era bem visto, ou whatever… hoje os homens estão no parto e fazem parte do parto. Não assistem. Parem também, à sua maneira, e dentro das suas possibilidades. E isso é um ato de amor natural para consigo próprios, para com a mulher, para com o bebé, para com o Ser que nasce nos braços dos dois, e o Ser que nasce em cada um dos pais depois de darem à Luz. Uma coisa é certa, os pais já não assistem ao parto, eles fazem parte dele.

Por dentro, agradeço à Vida por nos dar a possibilidade de dar à Luz, e de cuidar da Vida nos nossos braços, nossos corações, nas nossas relações. É possível fazermos tudo isso sozinhas enquanto mulheres, mas faz muito mais sentido, fazermos isto juntos. Porque já foi de outra maneira, e agora é cada vez mais assim. Porque apesar de tudo, há cada vez mais espaço para o amor e para a real cooperação na nossa Humanidade.

No Comments

    Leave a Reply